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  • Sarah Santos

Reflexões sobre o Antropoceno a partir de Ailton Krenak


(Criança geopolítica assistindo ao nascimento do novo homem - Salvador Dalí, 1943)



O Antropoceno consiste na época geológica atual, na qual os seres humanos, para além da agência biológica, são considerados enquanto agentes geológicos, isto é, que exercem força geológica nas mudanças climáticas, modificando processos básicos da terra. Esse termo, apesar de não possuir consenso nos campos da geologia, tem sido utilizado pelos estudiosos das ciências humanas e sociais para pensar os impactos antropogênicos da crise climática.


Os autores que trabalham este fenômeno alertam para o fato de ser resultado de nossas escolhas, como o crescente uso de combustíveis fósseis e aumento do gado, mesmo que suas consequências, como o aumento da temperatura média do planeta e o derretimento das geleiras, não sejam intencionais. Entretanto, a pergunta a se fazer diz respeito às escolhas de uma seleta parte da humanidade: os fatores da intensificação do Antropoceno não foram realizados pela humanidade entendida univocamente, mas estão atrelados a um modo de vida socioeconômico específico.


Posto isto, esta nova fase geológica pressuposta é fruto direto de um modo próprio de o Ocidente conceber o nosso entorno e os seres com os quais estabelecemos relações de codependência: isto evidencia-se pela contraposição de duas formas de existência, uma pelo trabalho e a outra pela providência. A diferença no modo como os ocidentais e os povos indígenas encaram a Terra, e de certa forma a própria vida, pode ser exemplificada a partir de uma passagem de Léry, ao contar o diálogo entre ele e um tupinambá:

[...] agora vejo que vós outros maírs sois grandes loucos, pois atravessais o mar e sofreis grandes incômodos, como dizeis quando aqui chegais, e trabalhais tanto para amontoar riquezas para vossos filhos ou para aqueles que vos sobreviver! Não será a terra que vos nutriu suficiente para alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos; mas estamos certos de que depois da nossa morte a terra que nos nutriu também os nutrirá, por isso descasamos sem maiores cuidados (Léry apud Ribeiro, 2006, p. 42)

Essa diferença, que pode apresentar-se como confronto, entre os modos de vida distintos é definida pela antropóloga peruana De La Cadena (2018) como “antropo-cego”. Trata-se de um conflito ontológico no qual a destruição colonial impõe a separação entre Natureza e Humanidade e a dissociação de humanos e não-humanos a coletivos que não reconhecem tais distinções, mas que se viram, a partir da empreitada colonizadora, obrigados a conceber essa lógica e a operar segundo ela a fim de tentar resguardar minimamente suas entidades e agenciamentos. Ou seja, é um projeto de modernização, baseado na ideia de progresso, sobre outras configurações de existência.


A intensificação do Antropoceno é datada a partir da Revolução Industrial. No entanto, como ressaltado acima, há certa desconsideração do que já havia ocorrido e estava ocorrendo nas regiões periféricas do globo: o avanço tecnológico e material do Ocidente dependeu diretamente da exaustão de povos e terras que não estavam no “centro do mundo”. O desgaste ecológico que culmina com o chamado Antropoceno nada mais é do que o início do fim do mundo perante o mundo ocidental. Antes que se percebesse o início do fim dos humanos, como bem alerta Krenak – ambientalista e ativista pelos direitos indígenas –, o fim do mundo dos “sub-humanos” já havia ocorrido e deu ensejo às condições necessárias e mais determinantes ao desastre ambiental que se aproxima em escala planetária. Esse projeto colonizador e “modernizador” imputava, segundo ele, um jeito correto de ser e existir na Terra e de que há uma humanidade com a missão de levar a civilização à “sub-humanidade”.


Outros autores, como o historiador Chakrabarty e o filósofo Latour, sugerem como solução a mudança de perspectiva em relação ao que consideramos humanidade e refletem sobre uma reconfiguração, sustentando que não pode haver uma concepção unívoca ou que as aspirações da humanidade moderna não nos cabem mais. Krenak põe em xeque a própria noção de humanidade. A “humanidade” se desenvolvia enquanto excluía outras pessoas e seres, e a manutenção dessa concepção é a perpetuação das exclusões.


Ele nos mostra, ainda, que a ideia de progresso suprimiu a resposta do Antropoceno antes mesmo de essa questão nos ser imposta. E agora, diante da catástrofe que se aproxima, há uma tentativa de reconstrução – impensada, inconsciente e não intencional – dessacralizada e cientificista da concepção dos povos originários: a Terra é um organismo vivo, mas para os Krenak, os AwajunWampi e tantos outros povos sempre foi. O autor afirma que quando nos desconectamos dessa mãe provedora e passamos a mercantilizá-la e encará-la somente como uma produtora de recursos começamos a perder o sentido, esse algo que nos tornaria humanos. Os filósofos Stengers e Latour, por exemplo, realizam a manutenção dessa noção ao sugerirem que não encararemos Gaia como uma deusa ou uma mãe, mas um sistema que em sua coesão permite a vida e é vivo portanto. Mas as suas teses se dão em um terreno do progresso e não há como fugir disso: eles e outros autores, assim como nós, partem das ciências rumo à resposta; foram os dados que os levaram a pensar; a filosofia, a geologia, a biologia são seu ponto de partida – inevitavelmente é assim, afinal, somos ocidentais, nossa subjetividade é formada pelos ideais da técnica e do progresso.

As respostas aos problemas ambientais já haviam sido elaboradas, muito antes da ideia do progresso, e não são tidas como respostas por aqueles que as vivenciam como modo de habitar e relacionar-se com a Terra. Elas são respostas para nós – “civilizados” –, que tivemos que aprender o que é a “natureza”, e devemos estar atentos a elas. Temos muito a aprender com as perspectivas potentes não acadêmicas de outras formas de existir que não participam dessa “humanidade que pensamos ser”:

Mas, nos últimos cinco, seis anos, com o agravamento da crise climática, com o planeta fervendo, esses negacionistas começaram a declinar de sua posição cética e querer entender a teoria de Gaia. Deixo isso para os incrédulos. Quem já ouvia a voz das montanhas, dos rios e das florestas não precisa de uma teoria sobre isso: toda teoria é um esforço de explicar para cabeças-duras a realidade que eles não enxergam. (KRENAK, 2020, p. 12)


A questão do sentido perdido pode ser exemplificada em uma cena do filme Interestelar (2014): Cooper, ao descobrir os verdadeiros objetivos de sua missão, decide retornar à Terra para reencontrar sua filha; mas Dr. Mann, enviado na primeira missão, tenta impedi-lo, pois não permitiria que alguém estragasse as chances de salvar a espécie. É sobre essa concepção de categorias que Krenak reflete: substituímos as relações de mãe, pai, fraternidade, amizade por categorias impessoais; e foi isso que nos levou aos problemas climáticos. Autores como Chakrabarty e a bióloga Haraway, mesmo que assumam as implicações problemáticas desse termo, sugerem que nos reconhecermos enquanto espécie poderia ajudar no desenvolvimento de uma resolução.


Entretanto, nossa incapacidade em formular uma resposta adequada se dá em grande parte por ainda acreditarmos no mito da igualdade universal: não somos iguais, nunca fomos. E não se trata somente do princípio de pluralidade, mas de que o mito da humanidade se funda na hierarquização dos homens, a nossa ideia de que podemos dominar a natureza vem principalmente da crença que podemos dominar os outros homens: o problema ecológico é, primeiramente, um problema sociopolítico. Segundo Krenak, a noção de humanidade tem como pressuposto principal uma forma certa de se existir na Terra, e este mito leva em conta outros mitos – o do progresso, o da razão e o da utilidade da vida. Descolamos nossos esforços de pensamento da ideia transcendente da vida.


Os ocidentais ainda carregam consigo o conflito e tratam como opostos a natureza e a cultura, mas para a cosmovisão dos povos originários há uma continuidade consciente entre ambos: suas escolhas, sua sociabilidade, sua relação com o entorno parte da concepção que possuem da “natureza”. Então talvez seja preciso abrir “uma fresta de entendimento nesse entorno que é o mundo do conhecimento” (KRENAK, 2020, p. 20) a partir do compartilhamento entre os modos de vida: é uma questão de subjetivação de outras maneiras de pensar e viver. Para ele, “o nosso apego a uma ideia fixa de paisagem da Terra e de humanidade é a marca mais profunda do Antropoceno” (KRENAK, 2019, p. 28) – a marca mais profunda do “antropo-cego”.


A grande dificuldade em criar aliados para a resposta diz respeito à sensibilização das pessoas dos centros urbanos que possuem um modus vivendi distante da natureza, que dissociaram esta do lugar em que vivem. A vida das metrópoles suprimiu o ambiente “natural”, este foi substituído pelo automatismo, pela pressa, pelo concreto e os edifícios; não mais descascamos alimentos, mas os desembalamos: é preciso um esforço hercúleo para desfazer esse hábito cognitivo no qual não existe a natureza como ponto mais fundamental e sem o qual não é possível nenhuma existência humana. Nossa percepção é constituída como se os avanços tecnológicos pudessem superar quaisquer crises, como se estivéssemos seguros de todo risco porque há um escapismo proporcionado pelo próprio progresso.


Contudo, há uma tendência crescente de diálogo e cooperação entre as cosmovisões que se viram forçadas a trabalhar com e a exceder as categorias do “antropo-cego” e outras micropolíticas urbanas que se configuram como lutas comunitárias ou até mesmo antissistêmicas. Fundamentalmente as uniões que possibilitam pensar o aspecto antropogênico dos problemas ecológicos tratam de permitir-se agregar à própria subjetividade outras subjetividades – não assimilar, substituir ou suprimir –, mas recuar e pensar a partir de outras cosmovisões que não somente as nossas. Para Krenak:

Suspender o céu é ampliar o nosso horizonte; não o horizonte perspectivo, mas existencial. É enriquecer as nossas subjetividades, que é a matéria que este tempo que nós vivemos quer consumir. Se existe uma ânsia por consumir a natureza, existe também uma por consumir subjetividades – as nossas subjetividades. [...] Já que a natureza está sendo assaltada de uma maneira tão indefensável, vamos, pelo menos, ser capazes de manter nossas subjetividades, nossas visões, nossas poéticas sobre a existência. [...] O fato de podermos compartilhar esse espaço, de estarmos juntos viajando não significa que somos iguais; significa exatamente que somos capazes de atrair uns aos outros pelas nossas diferenças, que deveriam guiar o nosso roteiro de vida. (KRENAK, 2019, p. 15, grifo nosso).

Portanto, qualquer que seja o caminho proposto para adiarmos o fim do mundo, ele deve ser antissistêmico e exige que nos destituamos da educação capitalista também, visto que esse sistema nos transformou em consumidores e não em cidadãos, como afirma Mujica e reitera Krenak (2019). Somos atravessados pelo ato de consumir. Consumir não somente no sentido de comprar, mas também no sentido de esgotar, destruir totalmente: compramos um modo único de enxergar a realidade à medida que destruímos outras formas de ver e viver. O catalisador do Antropoceno nasce junto a esse momento histórico de superprodução e de ocidentalização das subjetividades; para o seu adiamento é necessário conter – ou melhor destruir – o seu motor: não há soluções possíveis dentro do capital.


Por fim, uma digressão. O fato de Krenak ter utilizado “poéticas de existência” levou-me a refletir. A palavra poética também é polissêmica: pode referir-se tanto ao modo de criar ou fazer, mas traz também o sentido de beleza, lírico, encantador, que transcende a utilidade criativa do primeiro significado. Talvez as “ideias para adiar o fim do mundo” consistam em criar com encanto. Com beleza: sem consumir, sem “seguir nos devorando” (KRENAK, 2020, p. 45).


O grande pensador Ailton Krenak nos mostra uma outra forma de lidar e encarar o mundo, que sempre foi sensível às demandas, aos limites, às relações que poderiam ser estabelecidas com esse todo do qual somos partes. E nós – habitantes dos centros urbanos, que nunca acreditamos ser partes do todo; ensinados na oposição humanos versus natureza – estamos começando a perceber a necessidade de nos reconhecermos como parte desse todo: nossa maneira de perceber isso exigiu conhecimento técnico que nos leva impreterivelmente à cosmovisão dos Krenak e de tantos outros povos. Estamos sendo obrigados a voltar àquilo que o nosso modo de vida pretendia suprimir.


E mesmo que criemos com encanto e beleza soluções e alianças, mesmo que consigamos repensar a natureza de uma outra forma, que ouçamos os povos originários e que tenhamos muito a aprender com suas existências, temo que o “antropo-cego” continue ganhando, a despeito das lutas existentes, a despeito de grandes líderes-professores. Ele tem ganhado as maiores lutas. Não obstante, à medida que destruiu os “outros”, criou sua própria destruição.



REFERÊNCIAS



Livros



CHAKRABARTY, Dipesh. “O clima da história: quatro teses”. Sopro – Panfleto Político Cultural, 91: 2-22, 2013. Disponível em: http://www.culturaebarbarie.org/sopro/n91s.pdf.


DE LA CADENA, Marisol. “Natureza in-comum: histórias do antropo-cego”. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Brasil, n. 69, p. 95-117, abr. 2018.


KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.


______. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.


LATOUR, Bruno. “Para distinguir amigos e inimigos no tempo do Antropoceno”. Revista de Antropologia, 57 (1): 11-31. 2014. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/ra/article/download/87702/90680.


RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.


STENGERS, Isabelle. Capítulo Quatro. In: STENGERS, Isabelle. No tempo das catástrofes: resistir à barbárie que se aproxima. São Paulo: Cosac Naify, 2015.


______. Capítulo Cinco. In: ______. No tempo das catástrofes: resistir à barbárie que se aproxima. São Paulo: Cosac Naify, 2015.



Filmes


INTERESTELAR. Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Jonathan Nolan e Chistopher Nolan. Los Angeles: Warner Bros. Picture, 2014. 169 min.