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  • Fernando Olszewski

O Peso das Memórias


(O ciclo da vida, pintura de Raymond Douillet)


Texto escrito originalmente em 12 de maio de 2020.


Depois da recomendação pessoal de um amigo mais querido e, principalmente, depois de assistir a resenha em vídeo que ele fez, resolvi ler a pequena história de ficção científica chamada “O Peso das Memórias” (The Weight of Memories, tradução livre do inglês), escrita pelo autor chinês Liu Cixin. Para assistir à excelente resenha do conto, basta clicar neste link: O Peso das Memórias (The Weight of Memories) – Liu Cixin – Acabei de Ler, Episódio 9. Além dessa resenha em particular, vale à pena se inscrever no canal Acabei de Ler para receber boas dicas de leitura.


O conto é muito bom e suas implicações são extremamente interessantes, visto que elas estão ligadas aos temas filosóficos que me são mais caros: o pessimismo existencial e a ética negativa que se deriva dele. Essa temática, aliás, foi uma das principais razões pelas quais resolvi ingressar no estudo formal da filosofia, na universidade. Ela não foi a única, claro, mas de certo é a que mais me interessa no momento. É a razão pela qual gosto de estudar Cioran e pela qual escolhi este pensador para trabalhar durante minha iniciação científica e meu TCC.


Caso não queira saber da história de “O Peso das Memórias” e tenha interesse de ler, recomendo que pule os próximos quatro parágrafos


Há três personagens principais na história, embora outros sejam mencionados como lembranças e de passagem. Os principais são: uma mulher grávida, uma cientista e um feto em estágio avançado com o qual a grávida e a cientista são capazes de se comunicar, graças a um tipo de tecnologia milagrosa não especificada, criada pela cientista. Para que o feto seja capaz de se comunicar de dentro do útero com a mãe e a cientista, a cientista desenvolveu uma maneira de colocar as memórias da mãe no feto. Através desse método, bebês nasceriam com toda a memória de pelo menos um dos pais e já tendo a habilidade de se comunicar, o que, segundo a cientista, permitiria um acúmulo gigantesco de conhecimento em poucas gerações, trazendo enormes benefícios para a humanidade.


A cientista conta para a grávida e para o feto que todas as espécies de animais passam as memórias de uma geração para a outra. O que chamamos de instinto em animais irracionais são, segundo ela, memórias. A medida em que certos animais foram se tornando mais complexos, com sistemas nervosos intrincados, esse processo de transmissão de memórias de pais para filhos foi, por alguma razão, suprimido. A cientista, porém, foi capaz de descobrir onde estava alocada essa memória dormente no cérebro e, através de algum mecanismo ultra avançado, fazer com que o feto não apenas acessasse a memória como também se comunicasse com a mãe e outras pessoas através de um tipo de máquina.


Contudo, a conversa não ocorre como o esperado. O feto se sente horrorizado com as memórias da mãe. É preciso destacar que não há memórias extremamente traumáticas na vida daquela grávida. Ela passa por dificuldades comuns às pessoas de baixa renda e da classe média baixa. Acontece que, enquanto a grávida lembra de muitas dificuldades superadas de uma maneira positiva, inclusive lembrando dos momentos de uma forma um tanto quanto “açucarada”, o feto lembra dessas coisas como coisas de uma maneira muito mais vívida, sentindo todos os desconfortos como se eles estivessem muito mais próximos dele.


Por essa razão, ele expressa seu desejo de nunca sair do útero, ao que a cientista e a mãe respondem negativamente, dizendo que ele tem que nascer, pois não seria possível permanecer para sempre naquele estado. O feto, sabendo que uma vida comum é cheia de percalços e sofrimentos, comete suicídio dentro do útero, arrancando o seu cordão umbilical. Depois da tragédia, a cientista teoriza a razão pela qual as memórias dos pais acabaram sendo suprimidas na espécie humana. Segundo ela, quando temos consciência, ainda muito jovens, do fardo da vida, tendemos a recusá-la. Essa recusa, segundo ela, deve ter feito com que somente bebês com mutações que permitiam a supressão das memórias seriam capazes de sobreviver e levar a espécie adiante no tempo. Por fim, a grávida que perdera o feto em seu ventre conhece um técnico no laboratório da cientista e tem um filho com ele. Esse, no entanto, é totalmente ignorante dos sofrimentos e, assim como todos os bebês, enxergam o mundo como um grande brinquedo.


Aqui termina o resumo do conto


Esse tipo de conclusão negativa que leva a completa rejeição do mundo é tema recorrente ao longo da história da filosofia, muito embora a negação do “presente da vida” tenha sido vista pela maioria da tradição filosófica com péssimos olhos. Em grande parte, isso se deve por conta da influência das religiões, mas não apenas. Até mesmo o pensamento secular não deixou de considerar a vida e, em especial, a consciência humana como sendo coisas maravilhosas e dignas de serem perpetuadas enquanto for possível. Há, contudo, certos pensadores que se destacaram pela sua rejeição ao mundo, por o considerarem irredimível, de uma forma ou de outra. E, embora eles não tratem o suicídio como a melhor das ações possíveis, eles também não o condenam—em especial, não o condenam sob o ponto de vista de uma ética positiva, que afirma ser a vida e a consciência as maiores de todas as bênçãos.


Para Cioran (1911-1995), a consciência é o grande mal de nossa espécie. Ela nos faz cair no tempo, viver em busca de ilusões que preencham nossas vidas, em contraposição aos outros animais que vivem como se estivessem num eterno presente, sem a necessidade de criar narrativas fantásticas. Duas passagens ilustram bem o seu pensamento:

Comparados à aparição da consciência, os outros acontecimentos são de uma importância mínima ou nula. Mas esta aparição, em contradição com os dados da vida, constitui uma irrupção perigosa no seio do mundo animado, um escândalo na biologia. Nada o fazia prever: o automatismo natural não sugeria a eventualidade de um animal que se lançasse para além da matéria. Um gorila que perdeu seus pelos e os substituiu por ideais, um gorila com luvas, forjador de deuses, agravando suas caretas e adorando o céu como a natureza deve ter sofrido, quanto sofrerá ainda, ante semelhante queda! É que a consciência leva longe e permite tudo. Para o animal, a vida é um absoluto: para o homem, é um absoluto e um pretexto. (CIORAN, Breviário de decomposição)

e

Melhor ser um animal do que um homem, um inseto do que um animal, uma planta do que um inseto, e assim por diante. Salvação? O que quer que diminua o reinado da consciência e comprometa sua supremacia. (CIORAN, Do inconveniente de ter nascido)

É por essa razão que Cioran, apesar de não pregar a ideia de que todos devemos nos matar, faz elogios ao suicídio. O único problema, segundo ele, é que sempre nos matamos tarde demais, depois que já nascemos e vivemos. Ele não condena o suicídio, mas o ato em si acaba sendo inútil, além do que pode agravar ainda mais o sofrimento coletivo, visto que ele machuca os outros. Sua resposta é uma ética minimalista, que visa causar o menor dano possível aos outros e a si. É por conta desse minimalismo ético que ele abraça o que hoje chamamos de antinatalismo: a recusa da procriação.


Outro pensador contemporâneo que chega à conclusão pessimista e antinatalista é o sul-africano David Benatar, atualmente professor de filosofia na Universidade da Cidade do Cabo. O interessante é que, por ele ser da tradição filosófica anglo-saxã, e portanto analítica, Benatar utiliza muitos dados empíricos para argumentar sua posição. Alguns deles podem ser ligados diretamente ao conto de Cixin, em especial a questão das nossas memórias serem “açucaradas”, inclusive memórias de eventos desagradáveis. Ele apresenta pesquisas que mostram que a grande maioria dos seres humanos possui um viés otimista e considera suas vidas acima da média em termos de felicidade. Um de seus argumentos é de que nossas consciências tendem a não reter o negativo e que, por isso, somos inclinados a acreditar que nossas vidas são muito melhores do que elas realmente são. Segundo Benatar, é justamente o oposto: mesmo as melhores vidas seriam muito piores do que costumamos acreditar.


O filósofo norueguês do século XX, Peter Wessel Zapffe (1899-1990), argumentou que a consciência humana seria um traço evolutivo que nos torna mal adaptados para sobreviver, justamente por conta dela nos fazer questionar o significado e o propósito por trás de toda a existência, inclusive os nosso sofrimentos, significado este que não existe. Segundo Zapffe, a consciência humana seria como os chifres do extinto alce-irlandês. Durante um certo tempo, teorizou-se que este animal acabou extinto porque seus chifres tornaram-se grandes demais, o que os tornou mais lentos e aptos a serem abatidos por predadores, inclusive humanos. O problema é que chifres grandes eram uma vantagem evolutiva: os machos com chifres maiores eram mais aptos a passarem seus genes para a próxima geração, o que criou uma tendência de aumento ao longo do tempo. O que era uma vantagem evolutiva se tornou um estorvo.


Zapffe argumenta de forma análoga que nossa consciência teria se tornado um estorvo para nós. Para lidar com essa má adaptação evolutiva, Zapffe descreve quatro remédios inventados pela humanidade: isolamento, ancoragem, distração e sublimação. O isolamento se dá quando ignoramos completamente os aspectos ruins de nossa consciência. A ancoragem é quando buscamos coisas maiores do que nós mesmos para dar um significado às nossas vidas, como ideais políticos, religiões, a pátria, o time de futebol, etc. Quando nada disso funciona, temos a distração, que visa tirar nossas mentes da divagação (e do questionamento) focando em determinadas tarefas. Por fim, há a sublimação, que é a transformação dos conteúdos negativos da consciência em obras positivas, como, por exemplo, obras de arte, atividades esportivas, a formulação de teorias, etc. Porém, por mais que a sublimação seja capaz de transformar o negativo em obras positivas, a existência ainda continuará um poço absurdo de sofrimentos ao qual não consentimos participar antes de sermos trazidos para cá. É por essa razão que, para Zapffe, o melhor seria nós pararmos de nos reproduzir.


Por fim, temos o pessimista mais clássico da história da filosofia, Arthur Schopenhauer (1788-1860). Segundo ele, a vida comporta-se como um pêndulo que oscila entre a dor e o tédio, sendo os momentos bons e prazerosos extremamente fugazes. A função das coisas positivas da vida, para Schopenhauer, não seria nada além de uma espécie de enganação da Vontade, uma força metafísica irracional e caótica teorizada por ele. Essa força, a Vontade, permearia tudo o que existe, desde a matéria inorgânica, passando pelas forças físicas, até chegar nos seres vivos, nos animais e em nós, humanos. Tal força teria como objetivo perpetuar-se, seja da maneira que for.


No caso dos animais, essa perpetuação não leva em conta mecanismos de recompensa extremamente onerosos para o bem-estar: pelo contrário, toda a vida parece ser eterna fuga de estados negativos, sendo que nunca chegamos ao ponto de estarmos verdadeiramente contentes. Para Schopenhauer, o homem tem um lugar privilegiado no reino animal por fazer parte da única espécie capaz de entender esse processo caótico e negá-lo, abstendo-se da vida, de forma bem similar à ética minimalista de Cioran—embora Cioran tenha chegado à ela por vias diferentes, sem a formulação de uma metafísica, e tendo uma epistemologia cética. Em uma passagem memorável da obra do filósofo alemão, ele escreve:

Imagine-se por um instante que o ato da geração não era nem uma necessidade nem uma voluptuosidade, mas um caso de pura reflexão e de razão: a espécie humana subsistiria ainda? Não sentiriam todos bastante piedade pela geração futura, para lhe poupar o peso da existência, ou, pelo menos, não hesitariam em impô-la a sangue-frio? (SCHOPENHAUER, Dores do mundo)

Referências: CIXIN, L.. The Weight of Memories. [S.l]: Tor Books, 2016. Tradução para o inglês de Ken Liu. CIORAN, E.. Breviário de decomposição. Rio de Janeiro: Rocco, 1989. Tradução de José Thomaz Brum.

______. De l’inconvénient d’être né. Paris: Gallimard, 1990. BENATAR, D.. Better Never to Have Been: the harm of coming to existence. Oxford: Oxford University Press, 2006.

ZAPFFE, P.W.. The Last Messiah. Oslo: Philosophy Now, 2004. Tradução para o inglês Gisle R. Tangenes. Disponível em: https://philosophynow.org/issues/45/The_Last_Messiah. SCHOPENHAUER, A.. As dores do mundo. São Paulo: Edipro, 2014. Tradução de José Souza de Oliveira.

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