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  • Sarah Santos

Primatas espaciais: um escrito sobre Planeta dos Macacos*


(Ilustração Bathtub de Marco Melgrati)


Se a definição do ser humano é ser o animal racional, logo os símios de Planeta dos Macacos (1963) são humanos. A lógica não comporta a aberração dessa sentença. E como seria cruel descobrirmos que meros animais agem como nós: isso ultrapassaria imensamente a ferida narcísica descrita por Freud. Como o protagonista Ulysse, nos recusaríamos a ver o que se põe diante de nós: esse quadro grotesco de macacos vestidos! Pierre Boulle, escritor francês, nos desenha esse cenário em sua magnum opus:


Pois a criatura era um macaco, um gorila imenso. Em vão repeti para mim mesmo que estava enlouquecendo, afinal não restava mais nenhuma dúvida quanto à sua espécie. Mas encontrar um gorila no planeta Soror não era a principal extravagância do episódio. Ela residia para mim no fato de aquele macaco estar corretamente vestido, como um homem dos nossos, e principalmente na desenvoltura com que usava suas roupas. Essa naturalidade impressionou-me acima de tudo. Assim que avistei o animal, ficou evidente para mim que ele não estava de forma alguma fantasiado. (BOULLE, 2019, p. 47)

Durante a leitura, tantas possibilidades me saltaram aos olhos: nenhuma delas nasceu de minhas próprias ideias. É uma obra de tamanha grandeza que todas as suas possíveis interpretações estão lá, plenas e complexas; os pensamentos que surgem são sempre reticentes, interrogativos até. Seria essa história a versão satírica da humanidade e seus comportamentos primitivos? Ou um livro fictício sobre as experiências antropológicas fervilhantes do período em que foi escrito?

Isto posto, a pergunta basilar e óbvia a que esse livro nos leva é sobre o que nos torna humanos, e a sua resposta nos remete a outra questão: o que é a razão? Mistério grave e irresoluto. A fé cega – sim, fé – que temos em nossa racionalidade nos faz esquecer da animalidade a que pertencemos e todas as suas implicações, como a finitude, mortalidade e impulsos considerados irracionais. Na verdade, a nossa razão não é um dom divino ou especial, não é um selo de superioridade; é somente uma característica dos animais que somos. Ademais, nossa razão pode não passar de simples condicionamento, como o próprio Boulle formula no pensamento de Ulysse em algum momento. Temos uma atitude mimética diante do mundo e dos outros – capacidade que Aristóteles (2017, 48b4), em sua Poética, afirma ser uma tendência natural e a nossa primeira forma de aprendizado –, assim como o “espírito teria encarnado nos gestos” dos macacos: por meio de mimese condicionante, ou seja, pela capacidade de imitação:


O que caracteriza uma civilização? Será o gênio excepcional? Não; é a vida rotineira... Hum! Sejamos justos com o espírito. Concedamos que é acima de tudo a arte e, em primeiro lugar, a literatura. Acha-se esta realmente fora do alcance de nossos macacos superiores, se admitirmos que eles sejam capazes de combinar palavras? De que é feita nossa literatura? De obras-primas? A resposta é, mais uma vez, não. Mas quando um livro original é escrito – não aparece um há mais de um ou dois séculos –, os homens de letras o imitam, isto é, o copiam, de maneira que são publicadas centenas de milhares de obras tratando exatamente dos mesmos temas, com títulos um pouco diferentes e combinações de frases modificadas. Isso os macacos, essencialmente imitadores, devem ser capazes de realizar, com a condição, não obstante, de que utilizem a linguagem. (BOULLE, 2019, p. 158)

Há essa ideia de que a nossa razão é composta pela capacidade de linguagem, da linguagem enquanto sentido: algo que subsiste para além e independente dos signos. Se algum ser compreende o sentido, então ele seria racional. Os outros animais se comunicam, mas não são capazes de sentido, porque se substituirmos o código que possibilita a comunicação, a sua compreensão se perde. Enquanto os símios de Boulle são capazes de sentido e, portanto, racionais.

Além disso, este livro me causou estranheza com seus piratas espaciais e caravelas que cruzam as galáxias desde o início: apresenta dois personagens e logo os dispensa para dar lugar ao homem que nos revela a sua Odisseia no mundo primata. Ulysse chega a ser ridículo quando se obriga a imitar os gestos dos macacos, admitidos por ele como tão humanos. Assim, ele se torna a imitação da imitação do homem. Seu relato nos obriga à empatia: junto com ele somos os únicos humanos racionais – no planeta dos macacos isso não é nada redundante – e sempre somos levados à verdade terrestre da nossa altivez perante os primatas. Mas também nos esquecemos: em Soror, os homens são animais selvagens. Então, lembre-se, humano, não és superior ao macaco. E, por fim, o livro é selado pela metalinguagem: autor e personagem se encontram, um fala pelo outro.

Com isso, Planeta dos macacos não se aproveita do futurismo das ficções científicas: coloca a humanidade travestida sob outra pele, mantém os adereços e comportamentos. As roupas, os papeis hierárquicos, os problemas valorativos entre as “raças”, os estereótipos de gênero e o especismo violento são marcas humanas. Sobretudo o nosso ar de superioridade, que se revela no fato de que nunca saberei o nome símio do planeta Soror, pois o humano ignora e menospreza tudo aquilo a que não deu nome.


* Agradeço à minha mãe, Odeth, ao Artur e ao Heitor pela leitura atenta e sugestões que enriqueceram o texto;



Referências bibliográficas



ARISTÓTELES. Poética. Edição bilíngue. Tradução, introdução e notas de Paulo Pinheiro. São Paulo: Editora 34, 2017.



BOULLE, Pierre. Planeta dos Macacos. Traduzido por André Telles. São Paulo: Aleph, 2019.