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  • Heitor Isaac

Ver ou não ver, eis a questão: uma resenha de ensaio sobre a cegueira

Atualizado: Out 19


Texto escrito originalmente em 30 de maio de 2020


“Os leitores que não são escritores geralmente descrevem histórias como alegorias, mas duvido que surjam na mente do autor como alegorias.”1 (LEWIS, C.S. Sobre histórias)

Pode-se dizer que existem no mundo tantos mestres da interpretação quanto da escrita. Alguns por intermédio da natureza, outros pelo mérito do esforço. Seja como for, apesar de mais corriqueiros, são, ainda assim, excepcionais. Casos muito mais raros são aqueles “mortais afortunados”1 capazes de conjugar pensamento e poesia em um único corpo literário. Sempre busquei aprender com essa gente. Muitas vezes, esbarrei-me com o último tipo, e parece que a fortuna se compadeceu de mim mais uma vez.


Ensaio sobre a cegueira (1995) é obra de um mortal afortunado. Saramago é dessas figuras capazes de humilhar e rebaixar a humanidade, para, em duas ou três linhas depois, debochar e nos fazer rir de nossa própria desgraça. Mas, antes de começar a balbuciar, antecipo alguns pedidos de desculpas. Primeiro, peço àqueles que não acreditam na possibilidade de união entre teoria e ficção; estes, ou ainda não leram obras que lhes falassem algo sobre a realidade que os cerca, ou ainda não tiveram grandes aventuras, em suma, falta-lhes vivência ou leitura. Em segundo, àqueles que, por teimosia ou rigor exagerado, não se permitem extrapolar os “limites de uma obra”, e, por último, àqueles mais centrados que defendem a elaboração de textos sucintos. Peço desculpas porque pecarei três vezes: tentarei identificar outras obras, teóricas e literárias, que dialogam com Ensaio sobre a cegueira; extrapolarei seus limites, tentando encontrar, mesmo que em vão, significado em cada vírgula; e costurarei conceitos dos mais variados. Há tanta possibilidade de interpretação. Evidentemente, faço a que me agrada mais, ou pelo menos aquela que o presente me constrange a realizar.  


Se, em tempos normais, Ensaio sobre a cegueira já seria leitura incômoda, ler tendo como pano de fundo uma pandemia é no mínimo irônico, e se somarmos isso ao atual cenário político, a coisa beira o masoquismo. Não é preciso conhecer a biografia política de Saramago para perceber do que se trata a obra. O que está em jogo é um debate sobre nós, sobre nossa moral e ética. Talvez seja clichê dizer isso, mas muitos monstros surgem durante a leitura de ensaio sobre a cegueira. O livro nos serve, em grande medida, como meditação e reflexão individual sobre nosso caráter e humanidade. Não se trata, porém, de se pensar as consequências terríveis de uma nova doença na vida das pessoas, mas de pensar como nossa vida cívica talvez estivesse completamente equivocada mesmo antes desse terror chegar.


“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara” A epígrafe do livro aponta um caminho muito severo. É preciso coragem para agir, ou antes, para se incomodar; não é raro, principalmente na vida das grandes cidades, fingirmo-nos cegos; às vezes simplesmente viramos o rosto, às vezes apertamos o passo para evitar algo; às vezes cegamo-nos pelas palavras, como quando dizemos “a vida é assim mesmo, não há o que fazer”,  é, em suma, uma cegueira contraída pelo dia a dia.


Tal enraizamento do hábito é coisa muito comentada pela filosofia e pela religião. O esforço dos antigos em produzir conceitos universais certamente não foi em vão. Hoje, o que temos são sociedades que, mesmo em seu mais alto índice de diferença e particularidade, se encontram, em algum ponto da história, em comunhão conceitual. Mas, como também é sabido, a memória humana nunca foi engrenagem de perfeito funcionamento; há de se colocar, eventualmente, um pouco de óleo para a coisa funcionar. O mundo redescobre, de tempos em tempos, o que os antigos já comentavam há mais de dois mil anos: “que o homem, essa coisa ‘estranha’ entre todas, não é o que deve ser ultrapassado, mas preservado, e para começar contra si-mesmo.”3 Muito provavelmente é essa a contribuição da obra de Saramago; um resgate moderno da reflexão sobre o humano.


Não à toa, ele se debruça sobre a ética. Foi Aristóteles, porém, o primeiro a nos entregar uma definição de ética — “uma ciência do Bem”; do bem humano — foi ele também, quem demonstrou o fator cicatrizante do hábito:

“A virtude moral é adquirida em resultado do hábito […] Isto é confirmado pelo que acontece nos Estados: os legisladores tornam bons os cidadãos por meio de hábitos que lhes incutem. […] assim como toda arte: de tocar a lira surgem os bons e os maus músicos. Isso também vale para os arquitetos e todos os demais; construindo bem, tornam-se bons arquitetos; construindo mal, maus. Isso, pois, é o que também ocorre com as virtudes: pelos atos que praticamos em nossas relações com os homens nos tornamos justos ou injustos; pelo que fazemos em presença do perigo e pelo hábito do medo ou da ousadia, nos tornamos valentes ou covardes […] Numa palavra: as diferenças de caráter nascem de atividades semelhantes. É preciso, pois, atentar para a qualidade dos atos que praticamos, porquanto da sua diferença se pode aquilatar a diferença de caracteres. E não é coisa de somenos que desde a nossa juventude nos habituemos desta ou daquela maneira. Tem, pelo contrário, imensa importância, ou melhor: tudo depende disso.”

A mudança agressiva na vida dos novos cegos é, em poucas páginas, assimilada. Saramago não abre espaço para drama, afinal, que há de se fazer? Antes viam, agora cegam. Há, na realidade, um renascimento; estes que antes enxergavam, agora estavam mortos, ressurgiam mergulhados em um “mar de leite.” Temos, pois, agora, um bando de virgens, animais acuados, crianças que, ao atingir certa idade, dão-se conta de um mundo desconhecido. Daí para frente, é como o filósofo nos conta: aprendem pela experiência, e se moldam pelo hábito.


Coincidentemente, ou não, está em Aristóteles outra passagem que nos aproxima, ainda mais, de Saramago. Nas primeiras linhas da Metafísica, podemos encontrar:

“Todos homens, por natureza, tendem ao saber. Sinal disso é o amor pelas sensações. De fato, eles amam as sensações por si mesmo, independentemente da sua utilidade e amam, acima de todas, a sensação da visão. Com efeito, não só em vista da ação, mas mesmo sem ter nenhuma intenção de agir, nós preferimos o ver, em certo sentido, todas as outras sensações. E o motivo está no fato de que a visão nos proporciona mais conhecimentos do que todas as outras sensações e nos torna manifestas numerosas diferenças entre as coisas.”

A cegueira branca é, por outras vias, uma ruptura entre o homem e a realidade. Impedidos de conhecer, por lhes faltar a vista; Impedidos de agir, por medo do erro; impedidos de arriscar por medo da queda. Quem, por curiosidade infantil, nunca cerrou os olhos em casa afim de testar sua capacidade de orientação? Nos primeiros minutos a coisa é curiosa, achamos graça ao esbarrar nos móveis e na tentativa falha de alcançar o que pensávamos estar à nossa frente, mas o desespero chega aos poucos e, de súbito, abrimos os olhos e louvamos: eu vejo! Tão doloroso quanto essa experiência é seguir em frente na leitura de Ensaio sobre a cegueira, pois, igualmente de súbito, presenciamos o inverso: não vejo!


Há quem diga que, quanto ao gênero, Ensaio sobre a cegueira é um livro de fantasia, talvez seja. Afinal, qual ficção que quando transportada da mente para o papel não assume um aspecto fantástico. Ainda assim, acredito que a obra ocupe um outro espaço; o da distopia. Este gênero serve-se do Tempo, ora salta para o futuro, como em Admirável mundo novo e 1984, ora firma-se no presente, como a própria obra de Saramago. Seja como for, este tipo de literatura interpreta a realidade em seu limite lógico e nos revela as tendências e práticas de nosso tempo.


Não existe possibilidade de se escapar dessa leitura. A cegueira entendida como falha moral; a mulher do médico como agente de responsabilidade; o exército e o manicômio como equívoco humanitário; o velho com a faixa negra como a solidão na velhice; o garoto estrábico como pureza e ingenuidade; o homem armado como representante da violência sexual; a multidão cega como decadência humana. O resumo da ópera é o seguinte: o homem, tão convicto de suas estruturas racionais, esquece que não passa de um animal, um animal que sabe fazer cálculos matemáticos, é verdade, mas ainda assim, um animal. Mais apegados aos sentidos que à razão, basta que nos tapem os olhos, esse suposto elo, para que nossa diferença específica se dissolva em semelhança animalesca. Saramago coloca nosso corriqueiro dia a dia sob a lupa da verdade: somos tão horríveis quanto qualquer personagem; nossas ruas não são tão mais limpas e nossa água é tão amarelada e imprópria quanto a da cidade fictícia; e o mais importante: basta que haja a mínima possibilidade de agirmos em segredo para que os pensamentos mais vis surjam.


O que me parece curioso é esse fato. A invisibilidade sempre ocupou o hall dos poderes mais desejados. O sonho da ação livre, sem penalização ou vergonha, é coisa antiga na moral popular e alvo de crítica da moral política desde os antigos. Platão, por exemplo, na República, realiza uma investigação sobre a natureza da justiça e, em certa altura, conta-nos o mito do anel de Giges, uma joia capaz de tornar invisível seu portador.

“Se, portanto, houvesse dois anéis como este, e o homem justo pusesse um, e o injusto outro, não haveria ninguém ao que parece, tão inabalável que permanecesse no caminho da justiça, e que fosse capaz de se abster dos bens alheios e de não lhes tocar, sendo-lhe dado tirar à vontade o que quisesse do mercado, matar ou libertar das algemas a quem lhe aprouvesse, e fazer tudo o mais entre os homens, como se fosse igual aos deuses. […] E disto se poderá afirmar que é uma grande prova, de que ninguém é justo por sua vontade, mas constrangido, por entender que a justiça não é um bem para si, individualmente, uma vez que, quando cada um julga que é possível cometer injustiças, comete-as.”4

Temos algo assim também com Wagner, que, em sua ópera O Anel do Nibelungo (1874), nos conta estória parecida, e, seguindo a tradição anglo-saxã, J.R.R. Tolkien que, em O Senhor dos anéis (1937 – 1949), revisita o mito do anel do poder. Em ambos os casos, o anel, imbuído de grande poder, provoca em seus portadores, por contradição, uma grande maldição: seu uso, apesar de benéfico, atinge o espírito do portador. Por último, O homem invisível (1897), de H.G. Wells, que conta a estória de um cientista que descobre a fórmula da invisibilidade. Inicialmente uma bênção, torna-se aos poucos maldição. Longe da sociabilidade, o personagem se afasta cada vez mais da humanidade, torna-se vil e, por fim, morre assassinado; morto no chão, vai recuperando a sua visibilidade aos poucos.


Saramago é mais cruel. A “invisibilidade” que condena seus personagens não é propriamente física, mas mental. É como quando deixamos um biscoito cair no chão: nos apressamos para pegá-lo e proferimos as palavras mágicas, “ninguém viu, mesmo.” A incapacidade natural que acompanha a cegueira, como a dificuldade do movimento, da localização, do apontar e indicar, enfim, do reconhecimento do mundo, sobe mais um grau; o grau da insalubridade, da falta de pudor; da barbárie; da inércia completa:

“Tão longe estamos do mundo que não tarda que comecemos a não saber quem somos, nem nos lembraríamos sequer de dizer-nos como nos chamamos, e para quê, para que iriam servir-nos os nomes, nenhum cão reconhece outro cão, ou se lhe dá a conhecer, pelos nomes que lhes foram postos, é pelo cheiro que identifica e se dá a identificar, nós aqui somos como uma outra raça de cães, conhecemo-nos pelo ladrar, pelo falar, o resto, feições, cor dos olhos, da pele, do cabelo, não conta, é como se não existisse.” (pág. 64)

Os cegos pensam-se invisíveis, quando não o são, tornaram-se na verdade invisíveis para si. A moral e a lei, vigias da civilidade, não exercem mais poder algum sobre os desgraçados; tornaram-se igualmente cegas, quem ocupa seu lugar é o próprio indivíduo que aos poucos se entrega à corrupção, e abrir mão da civilidade significa, por definição, abrir mão do que nos torna homens.5 A mulher do médico, única personagem que ainda enxerga, guia aquele grupo distinto de protagonistas e impede que abandonem sua humanidade por completo. Ela é a humanidade encarnada; é a única que possibilita que continuem eretos, andando como homens.


Saramago expõe aquilo que o mito já anunciava: vivemos em uma ética da vigilância e do constrangimento. No final das contas, Bem e Mal pouco importam, importa-nos muito mais a circunstância, a opinião alheia, o egoísmo e a vantagem. Somos como bichos adestrados esperando o dono sair de casa para podermos morder, livremente, as almofadas. O ser humano continua, a despeito de todos os avanços, preso em uma menoridade intelectual 6. E é daí que surge toda espécie de aberração política e social. “Por que foi que cegamos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão. Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem.” (pág. 310)


Referências:

  1. Livro Sobre histórias; trecho do ensaio intitulado Sobre ficção-científica.

  2. Expressão usada por Maria Zambrano, no livro Filosofía y Poesía, para designar as pessoas que através das palavras são capazes de unir reflexão e beleza; ciência e arte.

  3. A Prudência em Aristóteles, Prefácio.

  4. PLATÃO. A República (2:359a–2:360d).

  5. “homem é naturalmente feito para a sociedade política. Aquele que, por sua natureza e não por obra do acaso, existisse sem nenhuma pátria seria um indivíduo detestável, muito acima ou muito abaixo do homem […] o homem é um animal cívico.” ARISTÓTELES. Política.

  6. Conceito presente no texto Que é esclarecimento? de Immanuel Kant.

  7. SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

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