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  • Fernando Silva

Reset do sistema financeiro: reflexões sobre possibilidades e consequências da atual pandemia

Texto originalmente publicado em 25 de Março de 2020.



Arte por Mari Roldan (2018)


Bem, antes de adentrar propriamente no tema, confesso não imaginar que meu primeiro post seria sobre o capital, mas sim sobre Hume. Acontece que a realidade nos afeta de tal forma, que acaba nos surpreendo. Foi diante do pronunciamento, no mínimo infeliz, do atual presidente do Brasil acerca das medidas de isolamento social e suas consequências econômicas, que fui motivado a escrever. É inegável que a prioridade é salvar vidas. Contudo, é necessário entendermos as consequências que o atual momento trará. Isso não significa que concordo com a idiotice pronunciada ontem, pelo contrário; tais ideias — como ser apenas uma gripezinha, a possibilidade de se gerar uma imunidade natural, entre outras — vão na contramão até mesmo de conservadores natos, como Trump e Boris Johnson — figuras que, no início da crise, apostavam nesses mesmos pontos, mas diante de uma série de estudos e análises sérias, perceberam que era errôneo. A questão é: como nos prepararmos para todo o caos que adentraremos, sabendo que a prioridade é o presente. Por isso, minha análise privilegiará um cunho materialista e utilizará diversas fontes confiáveis dos mais diversos espectros políticos na intenção de propor algumas possibilidades daquilo que estar por vir.


Primeiramente, aviso de antemão que não irei adentrar no debate que questiona se o Covid-19 originou-se naturalmente ou se é uma arma biológica. O que importa é que o vírus existe; está aqui, e, independentemente do que for, as consequências serão estruturais, como o aceleramento do reset financeiro e de um novo ciclo do capitalismo. O mecanismo é semelhante na maior parte dos países: A demora e recusa em fechar as fronteiras ou adotar drásticas medidas de isolamento social facilitaram a contaminação aguda da população pela pandemia. Claro que quanto mais o distanciamento social aumenta, mais o mercado cai, e em escala global, isso causará uma enorme recessão.





Podemos pensar nessa relação de iceberg entre Covid-19 e sistema bancário como a relação da causa da 1ª Guerra Mundial: Oficialmente, o estopim e motivo da guerra foi o assassinato do arquiduque do Império Austro-Húngaro, Francisco Ferdinando, mas por trás, o que ocorria era uma disputa das elites burguesas (burguesa aqui não é um xingamento, mas uma constatação) dos países envolvidos pela infra-estrutura, matérias-primas, etc. dos países africanos e asiáticos neocolonizados no século precedente, através das políticas imperialistas. A grande questão aqui é que temos que redobrar nossa atenção não somente para tal fato, mas especialmente para o que está sendo velado por trás disso tudo, a utilização de trilhões de dólares (variado de país para país e que surgem literalmente do nada) para a compra da dívida de bancos privados em troca de tesouros nacionais e títulos hipotecários (caso do FED e do Banco Central Europeu) para ajudar no combate a doença, disseminada por uma parcela considerável da população em diversos países. Isso significa, por exemplo, que o FED pode comprar tudo, desde que os contribuintes arquem com os prejuízos. A consequência é cada vez mais a asfixia da economia produtiva em prol de um dólar-euro sem valor, até o momento aonde o sistema não aguente mais e haja um reset deste.


Caso esse cenário se confirme, outra questão a ser pensada é a reavaliação e redenominação das moedas. Com o passar do tempo, será introduzido um novo sistema financeiro, que, muito provavelmente, terá como garantia algum metal precioso, e que — me pego imaginando — não será negociado abertamente, até a criação e disponibilização de uma reserva de moedas que passe a circular novamente. Isso implica que as taxas cambiais entre diferentes divisas irá mudar, inicialmente refletindo a real produtividade das nações. Concomitantemente a isto, surgirá uma nova onda nacionalista, seja ela uma fachada ou não.


Porém, a questão é que grande parte das infra-estruturas que produzem valor concreto estão já a algum tempo sendo compradas justamente pelos mesmos grupos oligárquicos pertencentes a nata do sistema financeiro através de capital improdutivo. Logo, é possível estabelecermos que caso essa tendência seja confirmada, no novo ciclo do capital, os donos do mundo possuirão não somente o capital improdutivo em suas mãos, mas também o produtivo. As apostas foram feitas.


Bibliografia


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Valor Econômico. Fed anuncia compra ilimitada de títulos do Tesouro americano. (https://valor.globo.com/financas/noticia/2020/03/23/fed-anuncia-compra-de-us-375-bilhoes-em-titulos-do-tesouro-dos-eua.ghtml).



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