Buscar
  • Fernando Olszewski

O trabalho como uma maldição

Este texto foi publicado originalmente em 29 de abril deste ano.

***


Há uma infeliz disputa de narrativas ocorrendo entre aqueles que escutam o consenso científico e praticam o isolamento social e os que defendem o obscurantismo e a necropolítica. A disputa só se dá porque hoje temos um grupo significativo de seres humanos que abraçou o obscurantismo científico e tudo o que há de mais reacionário em termos de pensamento político e social. Se não são loucos no sentido médico do termo, certamente agem como se fossem, colocando a própria vida e a vida de seus entes queridos em risco. Há, também, o caso daqueles que têm recursos suficientes para isolar a si e a seus familiares, mas pregam o fim do isolamento para os outros. Esses, além de obscurantistas, são imorais. Mas algo chamou minha atenção em meio a esta surpreendente e ensandecida batalha: a glorificação e romantização do trabalho, especialmente quando os obscurantistas acusam os que são a favor do isolamento social de não quererem ou não gostarem de trabalhar.


Com a pandemia de coronavírus, estamos podendo observar de forma ainda mais clara que o sistema precisa explorar a mão de obra constantemente para sobreviver. Vemos isso no mundo inteiro. Por conta do isolamento social, os mais pobres e menos qualificados estão sendo demitidos pelos seus patrões. Muitos dos que pertencem à aristocracia do proletariado, profissionais como engenheiros, tiveram seus salários cortados. Os donos dos grandes meios de produção — é preciso explicitar “grandes meios”, pois não podemos equiparar o vendedor de pipoca ou o dono do boteco da esquina com os CEOs do Walmart e da Berkshire Hathaway —, para se manterem onde estão, necessitam de uma massa de bilhões de seres humanos labutando sob seu comando. Claro, existem as exceções: alguns poucos bilionários e multimilionários, por não quererem passar a impressão de serem escravocratas na pior hora possível, apoiam benesses para os trabalhadores neste momento de crise.

É notório que certos movimentos políticos sempre tiveram o costume de acusar pobres que recebem auxílio do Estado de serem avessos ao trabalho. Isso é uma forma de preconceito de classe considerada aceitável dentro desses movimentos. No Brasil, tivemos a infeliz oportunidade de vermos algo parecido depois da criação do Bolsa Família e outros programas de auxílio para pessoas de baixa renda. Ao longo dos anos, as críticas contra programas que beneficiam os mais pobres foram crescendo em número e em tom, ao ponto de que podemos afirmar, sem sombra de dúvidas, que elas ajudaram a impulsionar o movimento ultraconservador e irracionalista que hoje vemos no país. Se antes o pobre já era mal visto, agora há um verdadeiro e explícito ódio ao pobre no país. Nas últimas semanas, as carreatas promovidas por movimentos políticos conservadores e liberais brasileiros serviram como bons exemplos de que essas tendências políticas não aceitam que as pessoas deixem de trabalhar, mesmo quando elas correm o risco de se infectarem com uma doença perigosa. As carreatas tiveram o claro objetivo de constranger trabalhadores a voltarem para os seus empregos. Ou seja, quando a situação é limite, esses movimentos não defendem o direito dos indivíduos de deixarem de produzir a mais-valia para os donos dos meios de produção. É importante observarmos o discurso utilizado por esses movimentos e, também, ver como o trabalho passou a ser pensado no mundo moderno e contemporâneo. A ideia de que o trabalho é algo nobre, uma atividade onde nos realizamos como seres humanos, não é exatamente nova, mas a forma como enfatiza-se a nobreza do trabalho é recente na história humana. Werner Jaeger, no seu clássico Paideia: a formação do homem grego, apesar de destoar um pouco da visão majoritária de que os gregos antigos viam o trabalho manual apenas negativamente, escreve o seguinte:

“O trabalho e os sofrimentos devem ter aparecido algum dia no mundo. Não podem ter feito parte, desde a origem, da ordem divina e perfeita das coisas. Hesíodo assinala-lhes como causa a sinistra ação de Prometeu, o roubo do fogo divino, que encara do ponto de vista moral. Como castigo, Zeus criou a primeira mulher, a astuta Pandora, mãe de todo o gênero humano. Da caixa de Pandora saíram os demônios da doença, da velhice, e outros males mil que hoje povoam a Terra e o mar.” (JAEGER, 2013)

Para os gregos, portanto, o trabalho teria uma origem sinistra. Era uma maldição, um dos muitos sofrimentos pelos quais a humanidade foi condenada a passar. Embora Jaeger argumente que o trabalho não fosse visto apenas de forma negativa pelos gregos antigos, ele concorda que a sociedade grega via as origens míticas do trabalho como sendo punitivas. Não havia trabalho na chamada “idade de ouro” e, se houvesse algo similar ao trabalho, ele não era árduo e sofrido como a labuta do homem da “idade de ferro” a qual os gregos antigos acreditavam pertencer. Com o surgimento da filosofia grega, a visão negativa do trabalho passou a ser racionalizada, como veremos a seguir. Platão (2018) escreve que o artesanato e as artes manuais (significando aqui todos os trabalhos manuais de fabricação e cultivo existentes na época) são considerados baixos, pois a labuta implicaria numa fraqueza natural do elemento superior, isto é, do intelecto. No diálogo Político, Platão (1984) escreve que o arquiteto é superior e comanda o trabalhador porque possui um conhecimento teórico, estando mais perto do saber puro do que o homem que apenas recebe comandos e “coloca a mão na massa”. Enquanto que no mundo contemporâneo ambos são vistos como trabalhadores, essa não era a visão grega. E o filósofo estaria acima do arquiteto ou qualquer outro detentor de um saber voltado ao mundo prático, já que ele busca contemplar a verdade de forma pura e desinteressada. Depois de Platão, Aristóteles também argumentaria pela inferioridade do trabalho perante o ócio do intelectual, que busca entender o mundo sem a intenção de modificá-lo ou extrair dele algum benefício material. A própria palavra “escola” deriva da palavra scholé, que significa ócio em grego. A ideia era de que o ócio é um momento em que não agimos com uma finalidade, o pensamento e o entendimento da natureza e da realidade não sendo considerados atividades produtivas, materialmente falando. No livro A Política, Aristóteles equipara o trabalhador braçal, tanto aquele que labuta na lavoura quanto o que trabalha na produção de bens, a instrumentos vivos. Eles têm a mesma função dos animais domesticados para o trabalho e não devem possuir o mesmo status que os homens de posses, estes sim considerados por ele como dignos de serem cidadãos livres:

“Convém que os cidadãos também tenham riquezas. Devem gozar de certa prosperidade, pois a cidadania não pode prostituir-se pelos trabalhadores manuais, nem por outras pessoas a quem a prática da virtude é desconhecida. [...] Eis quais são os elementos necessários para a composição de um Estado e quais são os membros do corpo político. À classe dos instrumentos necessários pertencem os lavradores, os artesãos e todos os mercenários; à  classe dos cidadãos, os homens de guerra e de lei, quer exerçam estas funções de uma vez para sempre, quer as exerçam alternadamente.” (ARISTÓTELES, 2006)

Apesar de Platão e Aristóteles terem criticado diversos aspectos do pensamento comum da cidade-estado ateniense — lembremos que o modelo político da cidade-estado entrou em declínio com as conquistas de Alexandre, pupilo de Aristóteles —, o pensamento aristocrático e hierarquizador de ambos refletia sentimentos existentes naquela sociedade, visto que ela era fundada em cima do trabalho escravo e da exclusão da maioria dos habitantes da vida política. Na democracia ateniense, apenas uma minoria de homens adultos possuíam direitos políticos, como participar da assembleia e ter a posse de propriedades, inclusive terras para cultivo. Aliás, essa era a razão pela qual muitos metecas (estrangeiros) se dedicaram ao comércio e ao ensino da retórica, como no caso dos sofistas. Com o advento do cristianismo, ao final da Antiguidade, o pensamento ocidental continuou considerando o trabalho como uma maldição. Santo Agostinho, num de seus sermões, escreveu:

“Uma condição dura é a vida do homem. O que mais seria o nascer além de entrar em uma vida de labuta? Do nosso esforço, o próprio choro da criança é testemunha. Deste cálice de tristeza ninguém pode ser dispensado. O cálice que Adão tomou deve ser bebido. Nós fomos feitos, é verdade, pelas mãos da Verdade, mas por causa do pecado fomos lançados aos dias da vaidade.” (AGOSTINHO, 2017)

Essa visão perdurou por mais de mil anos. O trabalho terreno sustentava apenas o corpo e o que importava para o homem medieval era a alma. Foi só com o renascimento urbano na baixa Idade Média que o trabalho começou a ser encarado de outras formas. E, a partir do Renascimento e da Reforma Protestante, novas concepções positivas do trabalho começaram a surgir e disputar espaço com as velhas crenças. Pessoas como Leonardo Da Vinci e Michelangelo eram às vezes bem pagas para realizarem obras que tinham prazer em fazer (BOTTON, 2009). O protestantismo trouxe uma mudança ainda maior sobre a ideia de trabalho. Segundo os reformadores, Deus não está apenas no trabalho realizado por padres e monges, mas em qualquer tipo de trabalho mundano, desde que tal ofício não envolvesse a prática de pecados, é claro. Em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, Weber escreve:

“Uma coisa antes de mais nada era absolutamente nova: a valorização do cumprimento do dever no seio das profissões mundanas como o mais excelso conteúdo que a autorealização moral é capaz de assumir.” (WEBER, 2004)

Tais noções positivas do trabalho mundano só começaram a tomar espaço a partir dos últimos 500 anos. Essas ideias foram se laicizando à medida em que o progresso científico e tecnológico tomou forma, principalmente a partir do final do século XVIII. Eventos como a independência dos Estados Unidos e a Revolução Francesa trouxeram uma glorificação do homem comum e de suas atividades laborais. Elas seriam uma forma de alcançar a felicidade. Um dos trechos mais famosos da Declaração de Independência dos Estados Unidos diz o seguinte:


“Consideramos estas verdades evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, entre os quais estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade.” (ARMITAGE, 2011)

O principal motivo histórico citado para as treze colônias buscarem a independência foi justamente a constante e taxativa interferência da metrópole inglesa nas atividades econômicas dos colonos — isto é, no trabalho deles. John Locke exerceu grande influência na Revolução Americana, portanto é fácil perceber como os valores do liberalismo contribuíram para a valorização da ideia de trabalho como algo nobre. Para Locke (2003), Deus deu o mundo a todos os homens igualmente, então a forma que temos para adquirir a propriedade individual de algo é através do trabalho. Essa tese, claro, foi depois criticada por muitos autores, inclusive liberais, além de autores pertencentes a outras correntes de pensamento, como a marxista. O importante aqui é mostrar que a ideia de trabalho como uma atividade boa e que enobrece o homem passou a ser incluída no pensamento filosófico e, também, no pensamento geral. Enquanto que, dentro da ótica dos movimentos políticos defensores da propriedade privada dos meios de produção — como o conservadorismo e o liberalismo —, o trabalho, apesar de ser considerado bom e digno, era algo a ser prestado para aqueles que são nossos superiores na sociedade — isto é, se não somos afortunados o suficiente para termos herdado ou conquistado a propriedade de algum meio de produção, devemos então vender nossa força de trabalho de bom grado para algum capitalista —, na ótica de outras correntes de pensamento político, esse tipo de sociedade era apenas uma etapa histórica a ser superada no curso de mudanças sociais radicais. Para Marx (2001), o capitalismo, apesar de ser uma etapa histórica necessária, precisava ser derrubado. Dentro do capitalismo, o trabalho não é capaz de deixar o homem realizado, algo que seria possível no socialismo (ELSTER, 1992). Essa forma de pensar fez com que movimentos em defesa do proletariado também passassem a idealizar ou até mesmo romantizar o trabalho — não aquele feito sobre o jugo dos capitalistas, mas o trabalho que realizaríamos no futuro, quando a humanidade estivesse liberta da luta de classes e os trabalhadores fossem os donos coletivos dos meios de produção. Essa pequena genealogia que fiz não é exaustiva, claro. O conceito de trabalho tem nuances muito mais complexas do que esta simplificação. Contudo, como visão geral, podemos afirmar que essa história não está incorreta, ainda que faltem detalhes. Poderia ter tratado mais sobre como e quando ofícios intelectuais passaram a ser considerados como trabalho ou explicado a origem latina da própria palavra “trabalho”, que tem a ver com um instrumento de tortura. Apesar de não mergulhar mais fundo nos detalhes históricos, podemos ver como a ideia de trabalho se transformou ao longo dos últimos 2500 anos. Na maior parte desse tempo, ele foi visto como uma espécie de punição divina. Foi somente a partir dos últimos 500 anos que ele passou a ser valorizado e ganhou uma áurea de nobreza e dignidade no imaginário comum, sendo, inclusive, motivo de disputa ideológica entre diferentes movimentos políticos, cada qual defendendo a sua visão de trabalho como sendo a mais digna e nobre. Contudo, concluo este texto com o pensamento negativo ou pessimista, como de costume. Cioran foi um filósofo e autor que se lembrou constantemente da forma como os antigos pensavam sobre a vida — e, também, sobre o trabalho. Sua obra inteira pode ser considerada uma negação das noções otimistas e romantizadas do progresso e da história. Enquanto que Kant, Hegel, Marx e até mesmo Nietzsche enxergavam o futuro como um ponto de realização da humanidade, uma época onde teríamos a oportunidade de alcançar algo melhor — independentemente da maneira como cada um deles interpretava tal melhora —, Cioran via no futuro a mesma coisa que via em todas as épocas: o homem trabalhará, morrerá e sofrerá por nada, até o dia da extinção da espécie. Em determinados momentos, Cioran (2014) parece elogiar o reacionarismo, mas tal leitura é problemática, visto que em diversas passagens, notoriamente em obras como História e Utopia e Breviário de Decomposição, ele faz críticas severas ao mundo capitalista e à qualquer sociedade que viva na base da exploração. O problema, segundo ele, é que todas acabam sendo assim, ainda que tenhamos esperanças. No Breviário, Cioran (2014) chega a afirmar que não entende como as pessoas ainda não destruíram a sociedade completamente — e está claro que ele fala da sociedade desigual, onde muitos trabalham para enriquecer poucos, enquanto outros tantos morrem de fome.  Esse autor pega emprestado o vocabulário mítico de antigas civilizações, tanto ocidentais quanto orientais, para explicar a situação humana de maneira análoga. Schopenhauer (2014; 2015) faz o mesmo em seus escritos, embora sua filosofia possua bases diferentes das de Cioran. O apreço pela ideia de que fomos amaldiçoados está presente em ambos os filósofos. Contudo, eles não acreditam numa maldição de fato. O uso das mitologias é apenas comparativo. O mundo é “como se fosse” uma prisão criada pelos deuses para nos punir por alguma transgressão original. Nos primórdios do tempo, teria havido um desequilíbrio universal que fez com que caíssemos no universo da matéria. Por causa deste evento, somos obrigados à labutar através do suor e das lágrimas. A realidade talvez seja ainda pior, como no caso do cético Cioran, para quem a natureza, através de seus processos cegos e randômicos, acabou produzindo um animal que pensa e tem consciência, um animal que precisa criar ilusões para conseguir sobreviver. Todas as mitologias e religiões seriam apenas isso, ilusões que criamos para aguentarmos o tranco do nada que efetivamente somos. Pelo menos para esses autores pessimistas, a ideia do trabalho, pensada como punição divina pelos antigos e pelos medievais, estava mais próxima da realidade.

Referências:

. AGOSTINHO, Santo. St. Augustine: Sermon on the Mount; Harmony of the Gospels; Homilies on the Gospels. Woodstock: Devoted Publishing, 2017.

. ARISTÓTELES. A Política. São Paulo: Martins Fontes, 2006. Tradução de Roberto Leal Ferreira (a partir da versão francesa).

. ARMITAGE, David. Declaração de Independência: uma história global. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. Tradução de Angela Pessoa.

. BOTTON, Alain de. The Pleasures and Sorrows of Work. Nova York: Pantheon Books, 2009.

. CIORAN, Emil. Breviário de decomposição. Rio de Janeiro: Rocco Digital, 2014. Tradução: José Thomaz Brum.

. ______.História e Utopia. Rio de Janeiro: Rocco Digital, 2014. Tradução: José Thomaz Brum.

. ELSTER, Jon. Auto-realização no trabalho e na política: a concepção Marxista da boa vida. Lua Nova: Revista de Cultura e Política, São Paulo, abr. 1992. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-64451992000100004. Acesso em: 29 abr. 2020.

. JAEGER, Werner. Paideia: a formação do homem grego. São Paulo: Martins Fontes, 2013. Tradução de Artur M. Pereira.

. LOCKE, John. Two Treatises of Government. New Haven: Yale University Press, 2003.

. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. [s. l.]: Domínio Público, 2001. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000042.pdf. Acesso em: 29 abril. 2020.

. PLATÃO. A República. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018. Tradução de Leonel Vallandro.

. ______. Statesman. Chicago: The University Of Chicago Press, 1984. Tradução para o inglês de Seth Benardete.

. SCHOPENHAUER, Arthur. As dores do mundo. São Paulo: Edipro, 2014. Tradução de: José Souza de Oliveira.

. ______. O mundo como vontade e como representação. São Paulo: Editora Unesp, 2015. Tradução de Jair Barboza.

. WEBER, Max. O mundo como vontade e como representação. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. Tradução de José Marcos Mariani de Macedo.


10 visualizações

©2020 por Projeto Academos. Orgulhosamente criado com Wix.com