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  • Fernando Olszewski

O cérebro utilitarista: um breve resumo de algumas das principais ideias do livro “Tribos Morais”


De onde vêm nossos valores morais? Seriam eles reais, como dois mais dois são quatro, ou como a fotossíntese das plantas? Ou seriam eles construtos humanos? Neste sentido, o filósofo e psicólogo norte-americano Joshua Greene, autor do livro Tribos Morais, certamente cairia no campo dos “construtivistas”. Greene (2018, p. 181-196) concorda com aqueles que sustentam que os valores morais de grupos humanos variados — tribos, como ele se refere num sentido amplo — não são como as verdades matemáticas, nem como as verdades das ciências naturais e empíricas. Eles muito menos seriam produto de uma lei divina. O comportamento moral dos grupos humanos, das “tribos”, seria o produto de determinadas pressões naturais, e sobrevivem aqueles que se adaptam melhor:

A moralidade evoluiu como solução para o problema da cooperação, uma maneira de evitar a tragédia dos comuns: [a] moralidade é um conjunto de adaptações psicológicas que permite que indivíduos de outro modo egoístas colham os benefícios da cooperação. [...] a essência da moralidade é o altruísmo, a abnegação, a disposição de arcar com um custo pessoal para beneficiar outros. (p. 33)

De acordo com Greene e seus colegas, a moral surgiu para resolver a “tragédia dos comuns”. Para ilustrar o que é a tragédia dos comuns, Greene (p. 29) apresenta a parábola publicada por Garrett Hardin, biólogo ecologista, em 1968. Nela, um grupo de pastores possui um pasto comum no qual podem ter muitos animais, porém não uma quantidade infinita deles. Com o passar do tempo, cada um dos pastores têm de decidir se adiciona mais um animal ao pasto, para depois vender o benefício gerado pelo seu rebanho, agora maior, no mercado local da comunidade. Caso um pastor faça isso, terá um ganho particular que se dará em cima de um custo comunitário. Nesta situação de pastos comuns e rebanhos particulares, pastores racionais e egoístas irão adicionar cada vez mais animais, justamente porque o custo do pasto comum é pequeno se comparado aos ganhos particulares de cada um. Mas esse cenário acaba gerando um problema:

Se cada pastor agir de acordo com seu próprio interesse, o pasto comum será completamente erodido e não haverá mais nada para ninguém. (p. 29)

O egoísmo individualista puro age como um câncer. A moralidade, então, surgiria para solucionar esse problema. A solução pode se dar de diversas formas, mas todas colocam o “nós” à frente do “eu” em maior ou menor grau. Por exemplo, determinados grupos de pastores podem desenvolver ideias mais individualistas de moralidade — porém, não o individualismo egoísta puro que causa a tragédia dos comuns em primeiro lugar, visto que “[o]s únicos individualistas puros são os eremitas” (p. 20) —, enquanto outros desenvolvem soluções mais coletivistas. E de uma certa forma, sociedades diferentes podem ter coesão interna e sobreviver, independentemente delas serem mais individualistas ou mais coletivistas. A função da moralidade, independentemente do tipo de moralidade e como ela se impõe, auxilia na sobrevivência de grupos diversos. Mas, para Greene (p. 36), a mesma maquinaria moral que evoluiu para solucionar a tragédia dos comuns é incapaz de lidar com outro problema: a tragédia da moralidade do senso comum. Diferente da tragédia dos comuns, a tragédia da moralidade do senso comum ocorre quando diferentes grupos humanos, diferentes tribos, entram em conflito não por serem imorais, mas por possuírem moralidades incrivelmente diferentes umas das outras. Greene introduz a ideia de tribos de novos pastos à parábola original de Hardin. Essas tribos não divergem apenas em questões (consideradas por alguns como sendo) menores, como a forma de organização dos recursos escassos, coisa que produz tanto sociedades mais individualistas quanto sociedades mais coletivistas, mas na forma de enxergar a vida e o mundo como um todo. Por exemplo: algumas tribos de pastos distantes têm a certeza de que Deus as presenteou com uma terra prometida, ou afirmou que eles têm o dever de evangelizar o mundo todo, incluindo as outras tribos, e por aí vai:

As tribos dos novos pastos lutam não por serem imorais, mas por verem a vida nos novos pastos de perspectivas morais diferentes. Chamo isso de tragédia da moralidade do senso comum. (p. 14)

Ou seja: a tragédia da moralidade do senso comum é, dentro dessa perspectiva, o que tem impedido uma resolução para os problemas da Palestina, ou para o conflito entre os que apoiam o direito ao aborto e os que são contra por acreditarem estar seguindo a vontade de Deus, e tantos outros embates complexos e aparentemente desprovidos de solução capaz de agradar a maioria das pessoas. A imoralidade ocorre entre indivíduos que não respeitam a moralidade surgida para solucionar a tragédia dos comuns original — já os conflitos entre dois tipos de moralidades diferentes é o cerne da tragédia da moralidade do senso comum. Não é mais um conflito entre o “eu” e o “nós”, mas um conflito entre “nós” e “eles”. A proposta de Greene no livro Tribos Morais é tentar prover um fundamento para solucionar a tragédia da moralidade do senso comum. Greene argumenta a favor do utilitarismo e o trata como o melhor candidato para resolver o problema. Ele, contudo, reconhece a má fama do utilitarismo ao longo dos capítulos e tenta atualizar um pouco a ideia para o que ele chama de “pragmatismo profundo”:

O utilitarismo é pragmático no bom e familiar sentido: flexível, realista e aberto ao compromisso. Além disso, é uma filosofia profunda, e não apenas uma questão de conveniência. O pragmatismo profundo tenta chegar a compromissos de princípios. Tenta resolver nossas diferenças ao apelar para valores partilhados — a moeda comum. (p. 26)

Greene (p. 114) afirma ter chegado à conclusão utilitarista desde cedo, mas confessa que enfrentou, ainda no colégio, questionamentos formidáveis. Durante um debate no ensino médio, por exemplo, Greene (p. 116-117) ficou sem respostas convincentes quando questionado sobre o utilitarismo ser usado para justificar o sequestro e assassinato de uma pessoa saudável para salvar, através de seus órgãos, a vida de vários pacientes que precisavam de transplantes. Contudo, Greene responde que o utilitarismo, visto como pragmatismo profundo e não de maneira caricata, não aprovaria de tal prática:

Há, por exemplo, excelentes razões para pensar que é pouco provável que empurrar pessoas de passarelas e roubar órgãos, mesmo com a melhor das intenções, possa promover o bem maior no mundo real, no longo prazo. (p. 219)

Se essa afirmação de Greene é convincente ou não ao leitor, isso já é outra história. Para ajudar a corroborar o utilitarismo como a teoria ética normativa capaz solucionar a tragédia da moralidade do senso comum, Greene utiliza estudos empíricos bastante interessantes. De fato, embora não tenha sido o primeiro a notar que determinadas áreas do cérebro estão ligadas a determinados tipo de comportamento e que afetá-las altera a forma de agir e ser das pessoas, ele ajudou a promover tais estudos nas últimas décadas, como forma de fundamentar melhor suas ideias. Ele teve a ideia de realizar experimentos ao perceber o seguinte: diversas observações neurológicas anteriores mostravam que o córtex pré-frontal ventromedial (CPFVM) está relacionado aos sentimentos e que danos nesta região do cérebro, embora não gerem déficits cognitivos, produzem uma situação que o neurologista António “Damásio chama de ‘saber, mas não sentir’.” (p. 125) Por exemplo, Greene e outros conseguiram demonstrar que pessoas com danos no CPFVM tendem a responder às diversas versões do dilema do bonde de forma mais utilitarista. Primeiro, vejamos como as pessoas tendem a responder à versão menos macabra do dilema do bonde. Ela se dá da seguinte maneira: há um bonde indo na direção de cinco pessoas amarradas aos trilhos e um observador pode desviá-lo puxando uma alavanca ou apertando um interruptor — mas, nesse caso, o bonde passará em cima de uma pessoa amarrada aos trilhos para os quais o bonde foi desviado. Greene (p. 127) discorre sobre como, nessa versão do dilema, a maioria das pessoas tende a aprovar que se aperte o interruptor — e elas fazem isso porque, numa situação dessas, seus cérebros acionam, de forma involuntária, o córtex pré-frontal dorsolateral (CPFDL), região associada ao controle cognitivo e raciocínio, freando o CPFVM, região associada aos sentimentos. Apertar um botão ou acionar uma alavanca é algo impessoal e faz com que as pessoas tomem decisões mais utilitárias. Contudo, numa versão mais macabra do dilema, na qual ao invés de um interruptor o observador tem que empurrar uma pessoa que carrega uma grande mochila na frente do bonde — o que faz com que o bonde pare antes de passar por cima das cinco amarradas no trilho —, ocorre o contrário: a maioria das pessoas, por alguma razão, tende a não aceitar que se empurre a pessoa carregando a mochila. Neste caso, só as pessoas com danos no CPFVM tendem a favorecer a rota utilitarista de salvar cinco vidas ao invés de uma. O mesmo ocorre com pessoas que possuem outras condições que diminuam a ativação desta região do cérebro, como psicopatas:

Pacientes com lesões no CPFVM estão mais propensas a aprovar o desvio do bonde na direção de membros da família para salvar um grande número de estranhos. Psicopatas de baixa ansiedade (conhecidos por seus déficits socioemocionais) fazem julgamentos mais utilitaristas, assim como pessoas com alexitimia, um transtorno que reduz a autoconsciência dos estados emocionais. (p. 132)

Isso tudo, para Greene (p. 139-151), ajuda a corroborar uma de suas teses principais, a de que nós possuímos duas maquinarias dentro de nossos cérebros para lidar com problemas morais: uma automática, que nos ajudou a superar a tragédia dos comuns e criar diversas moralidades intra-tribais; e uma manual, que pode vir a nos ajudar a superar a tragédia da moralidade do senso comum, criando uma metamoralidade inter-tribal. O modo automático estaria relacionado às emoções a à ativação do CPFVM, enquanto que o modo manual estaria associado ao raciocínio e ao CPFDL. As emoções são muito úteis e nos ajudaram a resolver a tragédia dos comuns ao longo da história da nossa espécie: conseguimos desenvolver moralidades capazes de colocar o “nós” na frente do “eu” num contexto intra-tribal. Porém, Greene argumenta que o modo manual — que para ele está em concordância com princípios utilitários — é (e será) útil para nós resolvermos os conflitos dos novos pastos, a tragédia da moralidade do senso comum, aquela que gera conflitos graves entre tribos que possuem diferenças fundamentais na sua forma de enxergar a vida e o mundo. Mas, novamente, é outra história se a tese de Greene convencerá ou não o leitor. Referência: Greene, J. Tribos Morais: a tragédia da moralidade do senso comum. Tradução de Alessandra Bonrruquer. Rio de Janeiro: Record, 2018.