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  • Fernando Olszewski

Misoteísmo


Texto originalmente escrito em 17 de agosto de 2020



Em Confissões e Anátemas (Aveux et anathèmes), o filósofo Emil Cioran escreve:

Kant esperou até os últimos dias da sua velhice para perceber o lado sombrio da existência e indicar “o fracasso de qualquer teodiceia racional.” . . . Outros tiveram mais sorte: para eles isso ocorreu antes mesmo de começarem a filosofar.

As teodiceias são tentativas de diversos pensadores de adequarem a existência de um Deus  onipotente e onibenevolente com a presença do mal no mundo. O termo “teodiceia” (théos; deus e dikē; justiça, julgamento) foi cunhado por Leibniz no século XVIII, mas a tentativa de solucionar o problema do mal existe desde a antiguidade. Elas geralmente são formuladas dentro de um contexto monoteísta e existem várias teodiceias diferentes: teodiceias judaicas, cristãs, muçulmanas, etc.

Uma das mais importantes e trabalhadas ao longo da história da teologia é a de Santo Agostinho, que viveu entre os séculos IV e V. Nessa versão do argumento, o mal em si é inexistente, ele é apenas a negação ou a ausência do bem. O argumento foi depois abraçado e adaptado por São Tomás de Aquino, Calvino e outros. A essência divina sendo equivalente ao bem, Deus e toda a criação seria boa, enquanto que o mal seria fruto do livre-arbítrio dos homens e teria entrado no mundo com o pecado de Adão — o que não explicaria a serpente traiçoeira no Jardim do Éden, mas isso não vem ao caso.

Esse argumento enfrenta uma série de problemas quando se questiona o ordenamento divino de toda a existência. Se consideramos que Deus nos deu total liberdade para agir — vamos ignorar o problema que a onisciência causaria mesmo se fôssemos totalmente livres —, então a explicação clássica do mal ser a ausência do bem joga a culpa na humanidade. Nós herdamos a culpa de Adão, somos tão culpados quanto ele, e nosso destino é conviver com o mal que “criamos”. Podemos, claro, apontar que não fomos nós que pecamos no Éden e que é injusto nos punir por algo que não cometemos, como fez Pelágio, asceta cristão contemporâneo e rival de Agostinho.

Costumou-se atribuir a Pelágio o início do que viria a se tornar o pelagianismo, uma heresia segundo a ortodoxia católica. Para simplificar, tratarei essa informação como correta, embora alguns acadêmicos disputem isso. O pelagianismo nega que o pecado original tenha manchado toda a descendência de Adão, tornando-a inclinada ao mal (apesar da liberdade de arbítrio). Em maior ou menor grau, as maiores denominações cristãs ensinam essa doutrina até hoje: somos inclinados ao mal por nossa natureza, herdada de Adão.

Contudo, se não fôssemos inclinados ao mal (e tampouco ao bem) como afirma o pelagianismo, não necessitaríamos da graça divina para sermos salvos, algo que, segundo Pelágio, aumentaria a responsabilidade (e culpabilidade) humana. Um dos argumentos dele era que o pecado original e a inclinação para o mal tiraria a responsabilidade do humano de escolher entre bem e mal, certo e errado, e que ele levava as pessoas a serem displicentes na sua prática cristã.

Agostinho discordou dessa tese porque, segundo ele, caso o homem fosse totalmente livre para escolher entre bem e mal sem o auxílio de Deus, isso significaria que a humanidade poderia ser boa apenas pelos seus atos. Isso, para Agostinho, diminuiria ou anularia o sacrifício de Cristo para justificar a raça humana. No fim, visão do pecado original como marca de toda a humanidade venceu o argumento dentro da Igreja. A ideia que passou a reinar é que somos livres, sim, mas inclinados ao mal, portanto precisamos da ajuda divina.

O que não fica claro no pelagianismo é de onde vêm os males que existem no mundo que não são frutos diretos da ação humana. Para a ortodoxia católica em formação, os males do mundo existiam por conta do pecado original, que contaminou tudo com sua não-bondade: fomos condenados a trabalhar para comer e a viver vidas mortais. Mas e para o pelagianismo? No pelagianismo, a morte e os sofrimentos do corpo não faziam parte da pena humana por conta do pecado original, mas eram atributos naturais da criação, portanto, não deveriam ser considerados como males da mesma forma que a má ação humana — embora a morte fosse vista como uma livração do peso da vida, o que de certa forma admite que a vida é sofrida, embora não iguale isso a um mal.

Uma teodiceia anterior às propostas por Agostinho e Pelágio foi a de São Irineu, que viveu no século II. Irineu argumentava que o mal, como sofrimento, era necessário para formar a alma humana. Os homens não nascem perfeitos, mas atingem a perfeição, segundo o argumento, através da vida e dos sofrimentos que ela carrega — este, portanto, seria o melhor dos mundos possíveis, já que nos habilitaria a atingir a perfeição através dos desafios que a vida nos impõe.

Essa teodiceia tenta justificar a presença do mal que decorre não apenas da ação direta do homem, como faz Pelágio, mas também o mal que existe no mundo natural (e.g., doenças, tragédias naturais). É assim porque Deus quis; dessa forma, podemos vencer os sofrimentos e aperfeiçoar nossas almas. Portanto, para Irineu, o homem pode causar mal, mas o mundo natural a sua volta também é causador de males. De certa maneira, Agostinho prega o mesmo, exceto que, no caso de Agostinho, os males do mundo natural advém única e exclusivamente do pecado original e subsequente Queda do Homem — isto é, eles não foram criados por Deus com a finalidade de nos aperfeiçoar após a Queda.

No século XVIII, David Hume escreveu o seguinte na sua obra Diálogos Sobre a Religião Natural:

Será possível, Cleantes, que, após todas estas reflexões, e infinitas outras que se poderia sugerir, você possa ainda perseverar em seu antropomorfismo e declarar que os atributos morais da Divindade, sua justiça, benevolência, misericórdia e retidão, tenham a mesma natureza dessas virtudes nas criaturas humana? Seu poder, admitimos, é infinito: tudo o que ela quer é executado. Mas nem o ser humano nem qualquer outro animal é feliz; portanto, ela não quer sua felicidade. Sua sabedoria é infinita: ela nunca se engana na escolha dos meios para um certo fim. Mas o curso da Natureza não tende para a felicidade humana ou animal; portanto, esse curso não foi estabelecido com tal propósito. Não há, em todo o âmbito do conhecimento humano, inferências mais certas e infalíveis que estas.

Um aspecto a se notar aqui é a ideia de que o curso do mundo natural não tende para a felicidade humana ou animal.

Plotino, o grande neoplatonista que viveu no século II, embora não fizesse parte das religiões monoteístas de sua época, como judaísmo e cristianismo, também enxergava o mal como uma privação, uma ausência, assim como Agostinho e a maior parte da cristandade até hoje. Todos esses posicionamentos que tratam a dor e o sofrimento como privações são contrastadas com a teologia de grupos como os marcionistas, os gnósticos e os maniqueístas. Para esses, há um dualismo entre o mundo da matéria, criado por um demiurgo ignorante ou malévolo, e o mundo do espírito, superior ao universo material.

Para os dualistas, a matéria é má por sua própria natureza e deve ser abandonada pelo espírito através da ascese e outros exercícios espirituais. A ação do homem, direta ou indiretamente — como no caso da contaminação do mundo por causa do pecado original —, não é necessária para dor e sofrimento ocorrerem. Dor e sofrimento ocorrem no próprio mundo natural, entre os animais. Gnósticos e maniqueístas não encontram grandes problemas para explicar isso: segundo eles, nosso mundo foi criado por uma divindade que não possui os atributos da onipotência e benevolência.

Essa explicação para a presença do mal possui a vantagem de não tentar juntar o criador do universo físico no qual vivemos — e, portanto, o responsável pelos nossos sofrimentos — com a figura de uma divindade benevolente. O panteão dos deuses gregos também possuía essa vantagem, visto que eles eram cheios de vícios e falhas assim como nós — embora os gregos explicassem os sofrimentos humanos através do mito do roubo do fogo divino perpetrado por Prometeu, que beneficiou indevidamente a humanidade. Prometeu foi punido por Zeus e a humanidade passou a ter que sofrer trabalhando, guerreando, casando e se reproduzindo.

Ao comentar sobre o panteísmo, Arthur Schopenhauer, filósofo do século XIX, escreveu o seguinte na obra Parerga & Paralipomena:

Obviamente, teria de ser um Deus mal-aconselhado, que não conhecia melhor maneira de se divertir do que transformar a si mesmo em um mundo como o nosso, em um mundo com tanta fome, onde ele teria que aturar a miséria, privação e morte, sem medida e propósito, na forma de incontáveis milhões de seres vivos medrosos e torturados, todos os quais existem por um instante apenas porque um devora o outro. Por exemplo, na forma de seis milhões de escravos negros que recebem, na média, sessenta milhões de chicotadas por dia em seus corpos nus; e na forma de três milhões de tecelões europeus que vegetam fracamente em sótãos sufocantes ou fábricas desoladas, atormentados pela fome e pelo lamento, e assim por diante.

Em diversas outras partes da sua obra, Schopenhauer afirma que um Deus onipotente e onibenevolente jamais poderia ter criado este mundo, e que todas as tentativas de atribuir onipotência e onibenevolência a uma divindade criadora de um mundo tão cheio de dor e sofrimento está fadada ao fracasso. Segundo ele, faz mais sentido atribuir à criação do mundo ao diabo — ou a uma figura semelhante — ou a um acidente. Respondendo a Leibniz e sua hipótese de que este seria de fato “o melhor dos mundos possíveis”, Schopenhauer escreve:

Ainda que a demonstração de Leibniz estivesse correta e que, de todos os mundos possíveis, este fosse o melhor, isso não demonstraria uma teodiceia. Pois o criador não criou só o mundo, mas a possibilidade em si; portanto, ele deveria ter feito a possibilidade de tal forma que ela permitisse um mundo melhor.  Porém, o que geralmente protesta demasiado alto contra a hipótese do mundo ser uma obra perfeita de um ser onisciente, onibenevolente e onipotente é a miséria da qual mundo está cheio, por um lado, e por outro a óbvia imperfeição e mesmo a burlesca distorção de seu fenômeno mais perfeito, o humano.

Na filosofia de Schopenhauer, o sofrimento e a dor são forças positivas, isto é, forças que movem a realidade dos viventes. Dor, tédio e falta: essas coisas não são a negação de uma realidade fundamentalmente boa, mas forças fundamentais da realidade, muito mais presentes do que o prazer, a saciedade e todas as coisas que consideramos positivas. O mal não é efêmero ou o ilusório. Ele escreve:

[…] Eu não conheço absurdo maior do que o da maioria dos sistemas metafísicos que declaram o mal como algo negativo, enquanto que ele é precisamente o positivo que se faz sentir. Por outro lado, o bem, i.e., toda felicidade e satisfação, é o negativo, isto é, a mera suspensão do desejo e cessação de uma dor.

Já no século XX, Cioran escreveu o seguinte na obra Exercícios de Admiração:

O problema do mal só perturba realmente alguns delicados, alguns céticos, revoltados pela maneira como o crente se conforma com ele ou o escamoteia. É para esses então que, em primeiro lugar, se dirigem as teodiceias, tentativas de humanizar Deus, acrobacias desesperadas que fracassam e se comprometem no seu próprio terreno, desmentidas a cada instante pela experiência. Embora procurem convencê-los de que a Providência é justa, não o conseguem. Eles a declaram suspeita, a incriminam e lhe pedem explicações em nome de uma evidência, a do mal, evidência que um Maistre tentará negar. “Tudo é mal”, ensinava. O mal, no entanto, apressa-se em acrescentar, restringe-se a uma força “puramente negativa” que não tem nada “em comum com a existência”, a um “cisma do ser”, a um acidente. Outros, ao contrário, pensarão que tão constitutivo do ser quanto o bem, e igualmente verdadeiro, ele é natureza, ingrediente essencial da existência e de modo algum fenômeno acessório, e que os problemas que suscita se tornam insolúveis se nos recusamos a inseri-lo, a situá-lo na composição da substância divina. Assim, como a doença não é uma ausência de saúde mas uma realidade tão positiva e tão durável quanto a saúde, da mesma forma o mal equivale ao bem, ultrapassa-o até em indestrutibilidade e plenitude. Um princípio bom e um princípio mau coexistem e se misturam em Deus, como coexistem e se misturam no mundo. A ideia da culpabilidade de Deus não é uma ideia gratuita, mas necessária e perfeitamente compatível com a de sua onipotência: só ela confere alguma inteligibilidade ao desenvolvimento histórico, a tudo o que ele contém de monstruoso, de insensato e de insignificante. Atribuir ao autor do devir a pureza e a bondade é desistir de compreender a maior parte dos acontecimentos e principalmente o mais importante: a Criação. Deus não podia esquivar-se da influência do mal, mola dos atos, agente indispensável para todo aquele que, cansado de repousar em si, aspira a sair de si mesmo para expandir-se e degradar-se no tempo. Segredo do nosso dinamismo, o mal se retiraria de nossa vida se vegetássemos nesta perfeição monótona do bem que, de acordo com o Gênesis, excedia o próprio Ser. O combate entre os dois princípios, bom e mau, trava-se em todos os níveis da existência, inclusive na eternidade. Estamos mergulhados na aventura da Criação, proeza das mais temíveis, sem “fins morais”, e talvez sem significação. E, embora a ideia e a iniciativa pertençam a Deus, não lhe poderíamos guardar rancor, tão grande é, aos nossos olhos, o seu prestígio de primeiro culpado.

Em outra obra, O Maligno Demiurgo (Le mauvais démiurge), Cioran escreve:

Como o mal preside tudo o que é corruptível, em outras palavras, tudo o que está vivo, é absurdo tentar provar que ele possui menos ser do que o bem, ou mesmo que ele não contém nenhum. Aqueles que identificam o mal com o nada supõem que estão assim salvando seu pobre e bom Deus. Nós O salvamos somente se tivermos a coragem de separar Sua causa da do Demiurgo. Tendo se recusado a fazê-lo, o cristianismo procurou, de maneira inveterada, impor a inevitabilidade de um Criador misericordioso: um empreendimento sem esperança que esgotou o cristianismo e comprometeu o Deus que procurava preservar.

Em outras palavras: quando atribuímos a onipotência à figura do criador do universo, são fúteis todas as tentativas de absolver ele dos males do mundo. Se Deus existe, ele é culpado, de acordo com perspectivas não-dogmáticas, sem compromisso em defendê-lo. Ao longo da história das grandes religiões monoteístas, houve um tremendo esforço em poupar a ideia do Deus onipotente e onibenevolente da culpa dos males do mundo.

Verdadeiros malabarismos retóricos foram empregados nos esforços de inocentar Deus da culpa dos males sofridos pelas criaturas. Contudo, dentro da perspectiva da filosofia negativa ou pessimista de pensadores como Schopenhauer e Cioran, o criador, se realmente existisse, seria sim culpado. Mais ainda: ele mereceria nosso desprezo e ódio, caso realmente existisse. O misoteísmo (a aversão ou o ódio a Deus ou aos deuses) não seria gratuito, mas perfeitamente justificável.

Referências:

. SCHOPENHAUER, A. Parerga & Paralipomena: short philosophical essays, vol. 2. Cambridge: Cambridge University Press, 2015. Tradução para o inglês de Adrian del Caro e Christopher Janaway.

. CIORAN, E. Anathemas and Admirations. Nova York: Arcade Publishing, 2012. Tradução para o inglês: Richard Howard.

. ______. Exercícios de admiração. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. Tradução de José Thomaz Brum.

. ______. The New Gods. Chicago: University of Chicago Press, 2013. Tradução para o inglês: Richard Howard.

. HUME, D. Diálogos Sobre a Religião Natural. São Paulo: Martins Fontes, 1992. Tradução de José Oscar de Almeida Marques.

. MCFARLAND, I; FERGUSSON, D; KILBY, K; TORRANCE, I. The Cambridge Dictionary of Christian Theology. Cambridge: Cambridge University Press, 2011.

. HICK, J. Evil and the God of Love. Nova York: Palgrave Macmillian, 2010.

. BONNER, A. The Myth of Pelagianism. Oxford: Oxford University Press, 2018.

. NELSON, E. The Theology of Liberalism: Political Philosophy and the Justice of God. Cambridge: The Belknap Press of Harvard University Press, 2019.

Saint Augustine (Stanford Encyclopedia of Philosophy)

Assessing the consistency of John Calvin’s doctrine on human sinfulness

Plotinus (Stanford Encyclopedia of Philosophy)

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