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  • Fernando Silva

A relação entre techné e episteme em Aristóteles


Texto escrito originalmente em 1 de outubro de 2020



O conceito de techné em Aristóteles é mais um daqueles que detém vários significados para o filósofo, que modifica-se de acordo com a perspectiva e o tema que o mesmo abordava em suas obras. Apesar disso, não há uma contradição das definições, mas uma relação de complementação entre elas. Esse texto pretende especificamente focar na relação entre techné e episteme, em outras palavras, entre a técnica e a ciência teórica. Aristóteles foi um pensador que detinha a clássica diferenciação ontológica entre o contingente e o necessário para o Ser e essa relação antagônica exprime-se numa relação hierárquica entre a techné e a episteme. Segundo ele, a episteme é o conhecimento racional do Ser necessário, visto que só pode ter ciência daquilo que é imutável, a techné localiza-se na esfera do conhecimento prático, que resulta como consequência das modificações das atividades humanas, cujo fim é o Bem ético-político, da ordem da contigência. Enquanto que a natureza da episteme baseia-se num conhecimento que pode ser demonstrado racionalmente, e portanto, apreende o que é por necessidade, a natureza da techné é dependente das interações humanas, motivo pelo qual lidamos com a mutabilidade em tudo que produzimos.


Além disso, por estar fincada à experiência concreta do mundo sensível, a técnica não pode ser concebida como ciência aplicada, e consequentemente, um objeto epistemológico. Devemos lembrar que justamente pela atividade da técnica distinguir-se da especulação teórica, afinal tudo o que pode ser conhecido necessariamente é, segundo a definição de ciência, que conhecer demonstrativamente implica em conhecer necessariamente. Esse realismo ontológico permite que o ser passível de ser conhecido detenha uma superioridade hierárquica em relação ao conhecimento, visto que é anterior ao conhecimento o objeto conhecido. Assim, a ausência do ser conhecível invalida a ciência, mas a ausência de ciência não invalida tal ser conhecível. Devido a ciência demonstrar teoricamente aquilo que uma coisa é que por consequência há ciência, por que antes de qualquer coisa, preexiste o ser conhecível. É por isso que só poder haver ciência do imutável. Isso não significa para Aristóteles que os objetos da ciências sejam substâncias eternas, como os astros, mas que a relação entre determinados objetos da ciência e algumas propriedades são.


A técnica não possui um fim em si mesma. Sua função é de um saber que possibilita a obtenção da finalidade humana. Esse é o motivo pela qual ela é neutra: Ela é instrumental. A forma que a técnica gera a alguma coisa é sempre extrínseca à materialidade natural. Por isso ela é submetida a objetos que não são nem necessários nem com naturais, no sentido de não ter uma disposição inerente para se tonar algo. Elas tornam-se em que são em virtude da ação humano, podendo ser algo bom ou ruim. Essa neutralidade da técnica contrasta justamente com o valor intrínseco do conhecimento das verdades necessárias, já que o valor deles está na ordem inteligível do ser, a qual os seres humanos, como animais racionais, devem contemplar, e a técnica não é nem garante tal realização.

Como uma atividade contemplativa, a ciência é desconexa a técnica. Entretanto, é necessário denotar que apesar do fato da técnica ser uma atividade da esfera do contingente, ela é um saber prático sistemático e organizado que investiga as causas pelo que alguma coisa possa vir a ser. Ela requere a construção da sua verdade, pois seu fim é exterior. Como diz Aristóteles na Ética a Nicômaco:

Para conhecer o que queremos fazer, temos que fazer as coisas que queremos conhecer (II-1, 1103-a)

A atividade produtiva ocupa-se com possibilidades. Enquanto que a ciência investiga o que é, sob a perspectiva da essência do ente, para determina-lo universalmente e assim obter seu conceito, a técnica é um conhecimento dinâmico sobre algo em geração ou movimento, por mais que seja derivada da mente do artesão. Entretanto, por estar em movimento, ela não tem controle absoluto sobre seu objeto desde a origem dele. Ela não é um pensamento puro ou puramente um simples resultado da experiência; ela é um conhecimento causal, passível de ensino, localizada entre a experiência e a ciência teórica. Por isso que a técnica não pode ser concebida sem a episteme, por ser uma atividade produtiva relacionada à experiência e fundamentada na razão; um conhecimento técnico é uma racionalidade prática, um saber que só se conhece enquanto atividade do produzir. E dessa maneira, não basta apenas produzir, mas produzir com excelência, guiado pela razão.


Bibliografia:


ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Nova Cultural, 1991 (Os pensadores; vl2);

______________. Metafísica. 5ª ed.; São Paulo: Loyola, 2002

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